Gordon Murray T.33
Gordon Murray Automotive

T.33

Gordon Murray T.33: O Analógico do Dia a Dia

Quando o Professor Gordon Murray CBE, lendário designer por trás do McLaren F1 e do Brabham BT46B “Fan Car”, fundou sua própria empresa (Gordon Murray Automotive, ou GMA) e lançou o T.50, o carro foi unanimemente saudado como o maior supercar analógico do século XXI. Ele apresentava uma posição de condução central, um V12 de 12.000 rpm e um enorme ventilador aerodinâmico na traseira.

No entanto, o T.50 era uma máquina hiperfocalizada, extremamente exigente e de múltiplos milhões de dólares, voltada para o circuito. Gordon Murray percebeu que havia espaço para um irmão — um carro que mantivesse a pureza mecânica e o exclusivo motor V12, mas o embalasse em um formato ligeiramente mais suave, mais utilizável e mais classicamente belo.

O resultado é o Gordon Murray Automotive T.33. É um supercar biplace de motor central, projetado não para bater recordes de volta, mas para ser a expressão máxima do romântico Grand Tourer do cotidiano.

O Homem por Trás da Máquina

É impossível falar sobre o T.33 sem entender quem é Gordon Murray e por que sua perspectiva sobre o supercar carrega uma autoridade singular.

Murray passou as décadas de 1970 e 1980 como um dos designers mais inovadores da Fórmula 1. Na Brabham, seu BT46B “Fan Car” usava um ventilador de sucção para extrair ar de baixo do carro, gerando força aerodinâmica extraordinária — venceu sua única corrida antes de o conceito ser banido. Seu Brabham BT52 deu a Nelson Piquet o Campeonato Mundial de 1983. Na McLaren, ele projetou o MP4/4 campeão, o carro que Ayrton Senna conduziu a uma temporada quase perfeita em 1988.

Mas o maior legado de Murray não é um carro de corrida. É o carro de estrada que ele projetou no início dos anos 1990: o McLaren F1. A filosofia do F1 — posição de condução central, V12 naturalmente aspirado, redução obsessiva de peso, sem tecnologia desnecessária — representava a visão de Murray da máquina de dirigir perfeita. Cada decisão era tomada a serviço do piloto. Esse carro, revelado em 1992, ainda é considerado por muitos o maior carro de estrada já construído.

O T.33 é a oportunidade de Gordon Murray, décadas depois e com sua própria empresa, de revisitar essa filosofia com olhos frescos e materiais modernos.

O Design: A Pureza dos Anos 1960

Enquanto o T.50 é definido por seu enorme ventilador traseiro e pela posição de condução central, o T.33 é definido por suas proporções elegantes. Gordon Murray declarou explicitamente que seu briefing de design era criar uma forma que parecesse bela décadas no futuro, completamente livre das asas agressivas, entradas de ar e planos de mergulho que sobrecarregam os supercars modernos.

A inspiração para o T.33 vem diretamente dos belos esportivos de corrida dos anos 1960, como o Alfa Romeo 33 Stradale, o Ferrari Dino 206 SP e o Porsche 904. Esses carros alcançaram sua beleza por meio das proporções — capôs longos, teto traseiro curto, linhas de teto fluidas e rodas perfeitamente posicionadas nos cantos da carroceria.

As linhas do T.33 são incrivelmente limpas. Não há enormes entradas laterais para alimentar o motor; em vez disso, o ar é canalizado por uma discreta entrada de ar montada diretamente no teto, conectada ao motor sem tocar no chassi (para evitar a transmissão de vibrações para a cabine). As linhas de corte das portas são intencionalmente simples. A parte traseira é elegante sem recorrer ao drama.

A aerodinâmica é gerenciada quase inteiramente sob o carro. A GMA utiliza o que chamam de “Passive Boundary Layer Control”. Ao gerenciar o fluxo de ar sob o assoalho plano e por meio de um difusor traseiro proeminente, o T.33 gera força aerodinâmica significativa sem uma asa traseira ativa — um minúsculo aerofólio traseiro ativo só aparece durante frenagens intensas. O carro atinge seus objetivos aerodinâmicos de forma invisível, que era o objetivo explícito de Murray.

O Coração: Cosworth GMA.2 V12

A joia da coroa do T.33 é o seu motor. Assim como o T.50, ele é movido por um V12 naturalmente aspirado completamente exclusivo, desenvolvido pela Cosworth, um dos fabricantes de motores mais respeitados na história do motorsport, responsável por propulsores que venceram dezenas de Campeonatos Mundiais de Fórmula 1.

Para o T.33, o motor foi profundamente modificado e designado GMA.2. Embora compartilhe o mesmo deslocamento de 3,9 litros (3.994 cc) do GMA.1 do T.50, as cames, o sistema de variação de fase e o mapeamento do motor foram completamente redesenhados para reduzir levemente o pico de rotação e oferecer uma curva de torque muito mais gorda e utilizável para a condução cotidiana.

“Levemente menor,” no mundo de Gordon Murray, significa que o motor ainda gira até estratosféricos 11.100 rpm — uma cifra que seria considerada especificação de motor de corrida em praticamente qualquer outro contexto.

Ele produz 615 PS (607 cv) a 10.500 rpm e 451 Nm (333 lb-ft) de torque. Crucialmente, 75% desse torque está disponível a partir de apenas 2.500 rpm, o que significa que o motorista não precisa constantemente extrair tudo do motor para avançar no trânsito urbano. Essa usabilidade foi um parâmetro de design deliberado: Murray queria que o T.33 funcionasse tão bem como veículo diário quanto em um exigente circuito de montanha.

O motor pesa apenas 178 kg, tornando-o um dos V12 mais leves já produzidos para um carro de estrada. Por usar cames acionados por engrenagens em vez de correntes ou correias, o ruído mecânico do trem de válvulas é intrincado, preciso e completamente embriagante mesmo em baixas rotações. O motor não silencia entre trocas de marchas; ele zumbe e clica com a intencionalidade de um relógio suíço.

Salve os Manuais

A GMA acredita firmemente que o envolvimento do piloto está fundamentalmente ligado ao ato de trocar as marchas. Portanto, o T.33 foi lançado com uma caixa de câmbio manual de 6 velocidades exclusiva, desenvolvida pela Xtrac — a mesma empresa que constrói caixas de câmbio para equipes de Fórmula 1 e protótipos de Le Mans.

Pesando apenas 82 kg, está entre as transmissões manuais de supercar mais leves do mundo. Gordon Murray se obsedou com a sensação tátil da alavanca de câmbio, garantindo que a ação mecânica seja perfeitamente equilibrada, precisa em seu guia e profundamente satisfatória quando uma marcha encaixa.

Uma opção de câmbio automático com paddle-shift foi originalmente oferecida como alternativa para compradores que a desejassem. A GMA acabou retirando essa opção da especificação após perceber que a esmagadora maioria dos compradores exigia o manual. Em um mundo onde os supercars abandonaram amplamente o câmbio manual pela automação de dupla embreagem, o compromisso do T.33 com o terceiro pedal é uma declaração de intenções.

Uma Cabine Construída para Dirigir

O interior do T.33 é um exercício de perfeição minimalista. Acomoda dois ocupantes em uma configuração esquerda/direita tradicional — ao contrário da posição central do F1 e do T.50, que é brilhante para a pureza de condução, mas pouco prática para viagens longas com passageiro.

Não há enormes telas de infoentretenimento dominando o painel. Murray argumenta que as telas envelhecem um carro incrivelmente rápido — qualquer touchscreen de 2015 parece visivelmente antiquado em 2024. Em vez disso, o motorista se depara com um grande tacômetro analógico lindamente usinado no centro, com sua escala cobrindo 11.100 rpm. Ele é flanqueado por duas pequenas telas digitais para informações necessárias, como navegação e Apple CarPlay, que ficam discretamente escondidas quando não estão em uso.

Cada ponto de contato — os botões giratórios para o clima, os pedais de alumínio usinado, a alavanca de câmbio com peso preciso — é fabricado em liga de alumínio sólido. O volante é completamente livre de botões ou interruptores. A filosofia de Murray é que os controles devem estar onde pertencem: no console central, na porta, onde você pode encontrá-los sem tirar os olhos da estrada.

A Obsessão com a Leveza

O T.33 é construído em torno de uma estrutura monocoque de fibra de carbono recém-desenvolvida, com painéis de fibra de carbono com núcleo que proporcionam isolamento acústico sem adicionar materiais convencionais de insonorização que aumentariam o peso. As portas, o capô e a carroceria traseira também são fabricados em fibra de carbono.

O resultado dessa obsessiva redução de peso é um peso em ordem de marcha alvo abaixo de 1.090 kg — uma cifra extraordinária para um carro legalmente homologado para a estrada com ar-condicionado, compartimento de bagagem e sistemas modernos de segurança. Em uma era em que os hipercars híbridos rotineiramente ultrapassam 1.800 kg, o T.33 é um peso-pena. Essa leveza extrema permite que a suspensão seja calibrada com relativa conformidade, oferecendo conforto de marcha que rivaliza com Grand Tourers dedicados da Bentley ou da Aston Martin, enquanto proporciona a agilidade de um carro muito menor.

A relação peso-potência se aproxima de 570 cv por tonelada — uma cifra que justifica o tempo de 0-100 km/h de 3,2 segundos e uma velocidade máxima de 335 km/h.

Comparação com Rivais Contemporâneos

O T.33 ocupa uma posição muito específica no mercado. Ele não está tentando competir com o Ferrari SF90 ou o McLaren 765LT em tempos de volta ou potência. Seus rivais são carros como o Aston Martin DBS, o Lamborghini Huracán e, sem dúvida, o Porsche 911 Turbo S — todos carros que equilibram alto desempenho com genuína usabilidade diária.

O que diferencia o T.33 de todos esses rivais é o motor. Nenhum carro de produção em sua faixa de preço oferece um V12 naturalmente aspirado girando a 11.100 rpm. V8 turbinados, V10 e até seis cilindros horizontalmente opostos definem a categoria, e embora sejam eficazes, carecem do drama sonoro e mecânico de um motor de doze cilindros em plena operação. O V12 Cosworth do T.33 é o último exemplar de seu tipo — puro, não assistido e magnífico.

Significado para Colecionadores e Produção

A GMA limitou a produção do T.33 a exatamente 100 unidades globalmente, com um preço de venda de aproximadamente £1,37 milhão antes dos impostos. Toda a alocação se esgotou em menos de uma semana após o anúncio — testemunho tanto da qualidade da reputação de Murray quanto do entusiasmo genuíno dos colecionadores pelo que o carro representa.

O T.33 será construído com o mesmo padrão de qualquer outro produto GMA: à mão, nas instalações da empresa em Windlesham, Surrey. Cada carro leva aproximadamente doze meses para ser concluído. Os proprietários receberão um carro genuinamente utilizável no dia a dia, enquanto é extraordinário em uma exigente estrada de montanha.

O Gordon Murray T.33 rejeita a eletrificação, a injeção forçada, as enormes telas sensíveis ao toque e as pesadas caixas de câmbio de dupla embreagem. O V12 naturalmente aspirado de 3,9 litros que o alimenta — construído pela Cosworth especificamente para este carro, a 11.100 rpm — produz 607 cv sem assistência de qualquer motor elétrico. Com 100 unidades alocadas em menos de uma semana a um preço de £1,37 milhão, Murray provou que existe um mercado pequeno mas consistente para carros que escolhem o purismo sobre a pontuação em testes de aceleração. São apenas 100 proprietários. Cada um sabia exatamente o que estava a comprar.