Ferrari Roma: La Nuova Dolce Vita
O Ferrari Roma foi o primeiro coupê Gran Turismo de V8 de motor dianteiro que a Ferrari lançou em quase cinco décadas — o último antes dele tinha sido o 365 GT4 2+2 de 1972. Apresentado em novembro de 2019, ele não foi desenhado para bater marcas de tempo nem para substituir a linha de V8 de motor central. Foi desenhado para ser o Ferrari mais silencioso, mais elegante e mais utilizável à venda — aquilo que os italianos chamariam de una bella macchina em vez de uma ferramenta de pista.
No entanto, no final de 2019, a Ferrari apresentou um carro que subverteu completamente essa hierarquia: o Ferrari Roma.
Comercializado sob o slogan “La Nuova Dolce Vita” (A Nova Vida Doce), o Roma é um coupê 2+2 de motor dianteiro-central. Não foi projetado para bater recordes de volta ou gritar mais alto. Em vez disso, foi concebido para ser o Ferrari mais belo, elegante e utilizável à venda — um carro que você poderia levar a uma première em Milão ou a um jantar em Paris sem anunciar a sua chegada, até pressionar o acelerador.
Contexto Histórico: O Regresso do Coupê GT
O Ferrari Roma ocupa uma posição específica na história da marca: o retorno do coupê GT V8 de motor dianteiro após uma longa ausência. Desde o Dino 308 GT4 de 1973, os carros de estrada V8 da Ferrari foram exclusivamente de motor central. O California e o Portofino usavam V8 de motor dianteiro, mas eram conversíveis. O Roma é o primeiro coupê Ferrari V8 de motor dianteiro em quase cinco décadas.
Isso importa porque o coupê de motor dianteiro tem um caráter específico que a berlinetta de motor central não consegue replicar. É mais relaxado, mais orientado para GT, com melhor visibilidade dianteira e uma posição de condução mais natural. O som do motor vem de à frente de você, em vez de atrás da sua cabeça. O peso sobre as rodas dianteiras proporciona um feel de direção diferente. É, em suma, um carro diferente para ocasiões diferentes — e a Ferrari reconheceu uma lacuna na sua linha que o Roma poderia preencher.
O nome é ao mesmo tempo um lugar e um conceito. Roma: a Cidade Eterna, beleza e história entrelaçadas, a dolce vita tangível em ruas de paralelepípedos e luz dourada ao entardecer. O carro é batizado não a partir de uma especificação técnica ou de uma conquista de desempenho, mas a partir de uma atmosfera. Isso é incomum para qualquer fabricante de automóveis e profundamente deliberado por parte da Ferrari.
O Design: Elegância Minimalista
O Ferrari Roma é amplamente considerado um dos carros mais belos produzidos por Maranello no século XXI. Projetado por Flavio Manzoni no Ferrari Styling Centre, rejeita deliberadamente a estética agressiva, com muitas saídas de ar e aerodinâmica dos carros como o F8 Tributo ou o 812 Superfast.
Em vez disso, o Roma inspira-se nos elegantes grand tourers Ferrari dos anos 1950 e 1960, especificamente no 250 GT Berlinetta Lusso.
- O Nariz em Ponta: A dianteira apresenta um proeminente “nariz em ponta de tubarão” e uma grade de cor da carroceria completamente única. A grade é feita de uma única peça de alumínio perfurada para permitir a passagem do ar aos radiadores sem quebrar as linhas limpas da dianteira.
- Flancos Limpos: Não há escudos Scuderia Ferrari nos para-lamas dianteiros (embora possam ser especificados como opção, muitos designers argumentam que arruína as linhas limpas). Não há entradas de ar laterais massivas. O perfil é definido por ancas musculosas e elegantes e por uma linha de teto que desce rapidamente.
- Aerodinâmica Integrada: Por ser a carroceria tão limpa, a carga aerodinâmica é gerida de forma invisível. O carro apresenta um complexo fundo dianteiro e um aileron traseiro ativo integrado de forma impecável na janela traseira. O aileron se implanta automaticamente em altas velocidades, oferecendo três posições diferentes (Baixo Arrasto, Carga Aerodinâmica Média, Carga Aerodinâmica Alta) em função da velocidade do veículo e da aceleração lateral.
A referência ao 250 GT Berlinetta Lusso é cuidadosamente escolhida. Esse carro — projetado pela Pininfarina e construído entre 1962 e 1964 — é considerado um dos Ferraris mais belos já construídos e uma das expressões definitivas do design automóvel italiano. Era um GT concebido para turismo elegante de alta velocidade, não para corrida, e usava a sua finalidade com graça. O Roma aspira ao mesmo ideal.
Os flancos limpos são particularmente marcantes numa era em que a maioria dos carros de performance acumulou progressivamente mais saídas de ar, tomadas e elementos aerodinâmicos. A Ferrari resistiu a todas essas tentações para o Roma, alcançando os seus requisitos aerodinâmicos funcionais através da gestão do fundo do carro e do aileron traseiro ativo, em vez de elementos de superfície. O resultado é um carro que parece quase chocantemente puro ao lado dos seus contemporâneos.
O Coração: O Premiado V8 Turbo
Sob o longo e elegante capô está o motor F154 BH. É um V8 biturbo de 3,9 litros (3.855 cc), parte da mesma família de motores que venceu o prémio “International Engine of the Year” quatro anos consecutivos.
Para o Roma, o motor foi extensamente revisto em comparação com a sua aplicação no Portofino. Recebeu novos perfis de cames, um sensor de velocidade para medir as rotações da turbina (permitindo aumentar as rotações máximas em 5.000 rpm) e um novo sistema de escape equipado com Filtros de Partículas de Gasolina (GPF) para cumprir as rigorosas normas de emissões Euro 6D.
Para garantir que os GPFs não arruinassem o som, a Ferrari removeu completamente os silenciadores tradicionais, introduzindo um novo design de válvula de bypass para manter um ronco robusto e muscular do V8.
O motor produz 620 cv entre 5.750 e 7.500 rpm, e um vasto torque de 760 Nm. Como todos os Ferraris modernos turbinados, o Roma utiliza o Variable Boost Management, que limita o torque nas marchas mais baixas e entrega os 760 Nm completos apenas na 7ª e 8ª marcha, imitando a entrega de potência linear de um motor atmosférico.
A decisão de remover os silenciadores convencionais e depender inteiramente das válvulas de bypass para a gestão do ruído é audaciosa. Os silenciadores convencionais funcionam reduzindo a pressão do escape por vários meios acústicos — absorção, reflexão, cancelamento. Removê-los por completo significa que a nota de escape completa do motor está disponível, gerida apenas pelas válvulas de bypass que fecham em cargas baixas para as emissões e abrem em cargas mais altas para o som e a performance. O resultado é um V8 que soa genuinamente mecânico e potente — não sintetizado nem suprimido.
A Transmissão de 8 Velocidades
A potência é enviada para as rodas traseiras através de uma nova transmissão de dupla embreagem de 8 velocidades, derivada da unidade desenvolvida para o hypercar híbrido SF90 Stradale.
Esta nova caixa de câmbio é 6 kg mais leve do que a unidade de 7 velocidades anterior usada no Portofino. A adição da 8ª marcha permitiu que os engenheiros da Ferrari encurtassem as relações nas marchas mais baixas para uma aceleração mais agressiva, utilizando a 8ª marcha como overdrive para cruzeiro rodoviário silencioso e altamente eficiente.
O Roma acelera de 0 a 100 km/h em 3,4 segundos, de 0 a 200 km/h em 9,3 segundos e tem uma velocidade máxima de “>320 km/h”.
A caixa de câmbio de 8 velocidades derivada do SF90 é um detalhe tecnológico significativo. Essa caixa foi projetada para um hypercar híbrido de 1.000 cavalos e é, portanto, enormemente sobre-engenheirada para os 620 cavalos do Roma. O benefício desta sobre-engenharia é uma robustez e precisão extraordinárias — uma caixa de câmbio que muda de marcha com confiança mecânica absoluta e provavelmente durará mais do que o resto do carro.
Uma Revolução Digital no Interior
Embora o exterior do Roma seja deliberadamente retrô e minimalista, o interior representa um enorme salto tecnológico para a marca. A cabine apresenta um conceito de “duplo cockpit”, dividindo claramente o espaço entre o condutor e o passageiro.
O Roma abandonou completamente os mostradores analógicos tradicionais. Atrás do volante fica um enorme painel de instrumentos digital curvo de 16 polegadas. O próprio volante inaugurou uma nova era de interfaces Ferrari, com touchpads hápticos em vez de botões físicos para arrancar o motor, navegar nos menus e controlar os limpa-pára-brisas.
Na consola central há um ecrã táctil vertical de 8,4 polegadas para controlar o clima e o infoentretenimento, enquanto um display slim opcional pode ser instalado à frente do passageiro, permitindo-lhe ver a telemetria, a velocidade e as configurações de áudio. O seletor de marchas é uma bela peça de metal fresado projetada para imitar os clássicos seletores de câmbio manual de portão aberto dos Ferraris vintage.
Os controles hápticos no volante têm sido controversos desde a sua introdução. A vantagem é um volante mais limpo com maior precisão de posicionamento do que os interruptores físicos permitem. A desvantagem é a dificuldade de usá-los por tato ao usar luvas ou ao conduzir com esforço — você não consegue sentir onde estão os botões, por isso precisa de olhar. A Ferrari continuou a refinar este sistema em cada geração, mas continua a ser um tema de debate entre os entusiastas.
O Roma Spider
Em 2023, a Ferrari apresentou o Roma Spider — a variante de teto aberto.
O Spider usa um teto dobrável de alumínio que abre em 13,5 segundos. A Ferrari conseguiu isso com apenas 75 kg a mais sobre o coupê — notável para uma conversão de teto rígido dobrável. Crucialmente, mantém os mesmos 620 cavalos, o tempo de 3,4 segundos e a velocidade máxima de 320 km/h.
As proporções do Spider são, se possível, ainda mais belas do que as do coupê. O teto dobrável desaparece de forma limpa atrás dos ocupantes, criando uma silhueta de GT de topo aberto pura que remete ao 250 GT California Spider dos anos 1960 — mais uma ligação ao patrimônio específico que o Roma evoca.
O Ferrari Ideal para o Cotidiano
O Ferrari Roma é construído sobre uma evolução da plataforma modular usada para o Portofino, mas 70% dos seus componentes são completamente novos. O chassi é significativamente mais rígido e mais leve, resultando num peso a seco de 1.472 kg quando equipado com opções de peso reduzido.
Equipado com a 6ª geração do Side Slip Control (SSC 6.0) e o Ferrari Dynamic Enhancer (FDE), o Roma é incrivelmente ágil. Sente-se muito mais preciso e focado do que um típico Grand Tourer, apagando as fronteiras entre um cruzeiro confortável e um esportivo dedicado. É a interpretação moderna perfeita da Dolce Vita.
A comparação com o 250 GT Berlinetta Lusso não é apenas estética — é filosófica. Esse carro foi construído para um cliente que queria beleza, refinamento e desempenho adequado num pacote que expressasse a elegância italiana sem compromissos. O Roma serve o mesmo cliente com o mesmo espírito, apenas com 620 cavalos em vez de 250 e freios de carbono-cerâmico em vez de tambores. A vida doce, atualizada para o presente.